sábado, 9 de fevereiro de 2013

Apelidos

Chamavam-me  boca de coração,
Talvez pelo formato
ou pela alma que se mostrava
perfumada,entusiasmada, musical.
Apelidaram-me de varapau
talvez pelo modo caniço de alcançar o céu.
Gognominaram-me de cego Aderaldo
talvez pelo jeito de ver diferente,
pela mania de olhar para dentro.
Os apelidos me identificaram
e só hoje consigo traduzi-los.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Escolhas

             O corpo de Leila se pôs de verde,os olhos de puro cristal,seu instinto detetivesco começou a esmiuçar e desentortar a cada segundo,pendendo mais amiúde ao seu incontrolável pendor para detectar as filigranas.As dúvidas sarapateavam nas entrelinhas do seu olhar aguçado.Algo lhe fartava e outras tantas coisas lhe faltavam.O sangue que lhe jorrava das entranhas não era espelho para ninguém.Doenças da alma são territórios desertificados,só os sintomas dão seus esgares de alertas,as causas permanecem indecífráveis.Desta ignorância surgem as disparatadas sentenças e as inconsequentes crenças.Leila decidiu parar de perquirir ,de se aventurar por locais escuros e desconhecidos.Fechou a gaveta da memória e escolheu o presente : deixou pousar a carícia do vento ,vestiu a alma de adereços e levantou-se para deixar-se abraçar pelos raios solares que inundavam dadivosamente a sua varanda.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Lições de vida

                      Leila o seguiu hipnotizada.As vezes ele lhe acenava com um porto seguro,outras lhe anunciava ondas gigantescas que  poderiam  a tragá-la para sempre.Era aquela imprevisibilidade que a fascinava.Foi amor à vista cansada.Olhou-o e sentiu-se inteiramente aprisionada dentro dele.Seus desejos galgavam estrelas e o cobriam com um manto de majestade.Em sua fértil imaginação deu-lhe asas de condor,cantigas
  de passarinhos, e perfume de  de juventude reinventada.Não tinham afinidades, mas o sentimento despertado contrariava qualquer percepção que destronasse sua fantasia.Ele não veio para somar,chegou para alertá-la de que a energia não pode ficar estagnada por mais perigoso que seja o caminho.Percorre-lo é nosso destino,um passo sempre a frente sem se deixar apavorar pelo ranço da experiência.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Gabizinha

             Ela   chega de mansinho,coloca a cabeça no meu colo e me fita imensamente como se quisesse sorver meus pensamentos.Ela quer permanecer e eu quero parar o tempo,fotografar nossas almas neste momento de amor.De vez em quando levanta a cabeça e me implora solução.Passo minha mão pelo seu corpo macio e lhe conto mentirinhas boas que,lhe acalmam, e amortalham o meu coração.O vento bate quente e veloz e levam para o infinito os pássaros que pousaram na janela.Lá fora a árvore balançada com seus galhos secos torna-se branca, como se despedida fosse sinônimo de paz,como se separação não afogasse nossos corações em areias movediças.Há um torniquete em minhas vísceras me apertando com fome como se desejasse me explodir.Entretanto, as dores são suplantadas pelo instinto de sobrevivência que desafia qualquer sentimento.Sei por experiência que um dia vai passar.Mas esta certeza não me impede de ouvir a voz de Riobaldo ao dizer: para amor que dói ,amanhã não é consolo.

sábado, 27 de outubro de 2012

Crises existenciais

          Engana-se aquele que ainda pensa que nossas vidas transcorrem em ritmos lineares.Tudo acontece em ciclos e círculos, nada acontece em definitivo,nem tampouco tem só começo,meio e fim.Assim, como acontece na natureza que, se apresenta placidamente e, de repente, se revolve em redemoinho, furacões, erupções e tempestades, o mesmo se dá com o nosso ânimo,com nossos desejos de mudanças,com nossos anseios de encontrar algum substrato para continuar, e procurar novas tintas para dar mais expressividade ao nosso modo de viver.Porque, na verdade, a mesmice,  até aquilo que muitas vezes nos faz feliz,cansa porque tudo não passa de repetição sem qualquer propósito, sem qualquer sentido.Ano sai ano entra,festeja-se, comemora-se sem se saber o porque.O essencial, se existe, não nos é dado a conhecer.Assim prosseguimos feito ovelhas tangidas,e quando chegamos ao fim do caminho tudo se apaga eternamente, sem que nada nos tenha sido revelado.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A síndrome do coração partido

            É como saudade ,quando não mata maltrata.O coração se parte em mil caquinhos, e lá vamos nós,ancoradas no instinto da sobrevivência,colar todos os pedaços com o cimento da esperança e a dádiva da resiliência.Quantas vezes, durante a nossa jornada, fizemos este trabalho dolorido,quantas vezes pensamos que não iríamos suportar e desistimos da viagem.A vida é assim, não avisa quando vai nos ferir, nem quando e como vai nos curar.Entretanto ,aprendi que não adianta desesperar,e que sem que saibamos, as vezes, as perdas acontecem nos momentos certos.Aceitemos sem revoltas,é a lei da natureza e não pode ser revogada pela nossa vontade.Seguir em frente é a opção lúcida. Agradecer pela a felicidade que desfrutamos ao lado do ser pelo qual tivemos amor é um ato de humildade que, deve ser cultivado.As lembranças e a saudade sempre encontrarão abrigo em nossos corações.A batalha é para o guerreiro a fonte que o fortalece.Prossigamos sem virar páginas porque todas contam a nossa história.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Dona Nenzinha

        Alimentou-se apressadamente,  como se algo lhe determinasse a urgência.Tinha muita fome.Seu corpo, já desalojado de carnes claudicava e se envergava como se carregasse pesado fardo.Apesar de esquálida chegara aos oitenta anos ,mas se sentia exausta e triste por tanta vida miserável que lhe fora concedida.Mas se conformava e dizia ser a vontade de Deus. Para sobreviver, com seus parcos alimentos, dependia da benevolência de São José.A tecnologia ainda não chegara ao seu roçado.Os fantasmas já começavam a lhe visitar contando-lhe histórias de outras vidas mais abastadas menos miúdas , menos insignificantes.No sertão fincara suas raízes, e ali mesmo viria a florescer quando as águas desabassem do céu e umedecesse aquela terra castigada e quase desconhecida no mapa do Estado.Por enquanto se irmanava aos galhos secos e com eles dividia a sua existência sombreada pela desesperança.Era taciturna, nada revelava de  de si e de sua vida inóspita. O seu rosto, extremamente vincado pela labuta incessante de sol a sol,se tornara uma máscara imutável infanciando-se vez por outra nos devaneios.Aprendera a economizar tudo até as poucas palavras que aprendera para se comunicar.Somente era lembrada à época das eleições.Naqueles dias reverberava,
recebia um abraço e um olhar interessado.Valia um voto.